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Mensagem por Boss em 20/9/2016, 19:16

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Os bastidores da pornografia em Portugal são de acesso muito reservado. Quase todos os que fazem o porno nacional preferem ficar na face invisível da indústria. É um pouco como o consumo: toda a gente diz que não faz fazendo o que não diz. Viagem ao outro lado do filme.

Um dia destes, à espera de uma atriz porno, numa clínica de estética na Foz do Douro, Porto. Não tivesse passado 45 minutos, seriam 11h em ponto.

Sónia chegou, fashionably late, pedindo desculpa pelo atraso. Veste calças de napa e t-shirt preta, rendada, que devia estar ao nível da cintura, mas não estava, por causa dos seus seios novos. Sempre que pode, modifica o corpo. Queria ser mais alta. Quanto a isso, nada a fazer. Os sapatos estão assentes num edifício de cortiça, com perfil slide & splash. Sentou-se. Soltou uma gargalhada quebra-gelo. “A imprensa séria deixa-me nervosa, pá! É estranho, não é?”

A pornografia tem desde sempre na sociedade portuguesa uma posição de missionário. Tem inerente um preconceito íntimo, guardado como um animal de estimação, que se torna feroz nas horas vagas. Uma bolinha vermelha que prevalece no canto superior da consciência coletiva.

Sempre que está nervosa, Sónia socorre-se do telemóvel. Esfregou o ecrã até encontrar fotos recentes dela ao entardecer na praia de Leça, em fio dental, com um bocadinho de biquíni. “Pareço mais velha nos filmes, não é?” Por acaso. A porteira, latejando repulsa ante a fêmea alfa, não trazia boas notícias, dona Sónia. A clínica não era indicada para uma entrevista.

Fomos em direção aos arredores do Porto, para um motel cercado de fábricas. Numa cabina a servir de portagem é fornecido um menu. Sónia aconselhou o quarto dos espelhos.

Entrámos com o carro. Subimos uma escada de caracol, quase com entrada direta para um jacuzzi. O quarto tinha tonalidades calientes. Na base de um LCD havia um cardápio de filmes pornográficos. Sónia folheou-o, como um fumador que pega num cigarro para ocupar as mãos. Riu-se às gargalhadas. Entrava num deles. A piada residia no facto de ela nunca ter reparado.

Qual é o filme? Disparou outra gargalhada defensiva para camuflar um rubor imprevisto: “‘Secretária de Dia, Stripper de Noite’”, informou, desajeitada. Sónia era Sónia Kel, debutante, no papel de Sónia. Nessa altura, volvidos 10 anos de casório, era secretária de dia e stripper à noite, ambas por ironia do destino. Um clássico da vida e da Hotgold, que apadrinhou a sua estreia na categoria hardcore, contracenando com o marido, Flávio Malha, sob a lente de um realizador com o pseudónimo Asa Delta Five. Tinha 27 anos. Agora tem 31. Já não é secretária de dia. Ainda é stripper à noite. Já não tem marido. Tem um gato.

O PRÍNCIPE DE ESPOSENDE
Sónia nasceu em Valença do Minho. Com 13 anos, abandonou o 6º ano e foi trabalhar para uma fábrica de confeções, julgando que dava início à grande marcha da sua emancipação. “Queria ganhar dinheiro para ter as minhas coisas.” Em regra, percebeu, as fábricas não fabricam a independência de quem lá trabalha. Nem evitam a sensação incómoda de tirar o emprego às máquinas. Cumpriu três anos de degredo em nome da sua libertação. Sonhava com roupas novas, modernas, com pinta. E um apartamento arrendado em seu nome. “Nunca sonhei com príncipes encantados.”

Qualquer coisa não bate certo quando se fica desempregado sem se ter idade para trabalhar. Com 16 anos de vida e três de fábrica, Sónia não quis regressar à escola. Queria era ser bailarina. Ficou no ócio do desemprego, matando o tempo muitas vezes no bar da tia. Não era da night. Raramente ficava aberto até às 22h. Em geral, servia galões e meias de leite para seduzir croissants petrificados. Foi ali que conheceu o homem da sua vida. Pelo menos, enquanto o foi.

Sónia apaixonou-se. E aceitou o pedido de casamento. Casou com 17 anos. Afinal, deixou-se encantar por um príncipe de Esposende, para onde foram viver. “O casamento mudou muito a minha vida.” A vida mudou muito o seu casamento.

Sónia nunca teve vocação doméstica. Fez um curso de arte floral e outro de auxiliar de enfermagem, que lhe rendeu emprego na Santa Casa da Misericórdia, no sector geriátrico. “Tratar dos velhinhos é bastante duro. É preciso ser forte de corpo e espírito.” Fez esse trabalho durante três anos, enquanto a vida, secretamente, desenvolveu os seus tédios. Mantinha intactos os sonhos de bailarina. Frequentava a noite por recreio. Até que uma amiga lhe disse que podia fazer bom dinheiro a “trabalhar nos copos”.

Depois de ponderar com o marido, decidiu abraçar o dia e a noite. A atividade noturna tinha a vantagem suplementar de poder vê-lo mais. Dividiu-se, com escassos intervalos de sono: varão e ballet exótico; puré às colheres e fraldas seniores. A noite, com as suas feitiçarias, sobrepôs-se, quando já era secretária. Na noite se conjugaram muitos astros, nem todos brilhantes.

A pornstar, sentada na beira de um colchão de água, transformada em tantas mulheres pelos espelhos daquele quarto de motel, deixou escapar a tristeza por entre a máscara de mulher fatal. Apagou-a como se passasse uma esponja na ardósia da sua vida. “Somos como toda a gente. Temos tristezas e alegrias...”

O LABIRINTO DA FAMA
Certo dia, o dono de um strip club de Gaia desafiou-a para fazer um filme porno. Ela aceitou, sabendo que ia contracenar com o marido. “Queria ser conhecida, disse que sim. Mas não tinha a noção. Nunca pensei que ia ser tão divulgado.” O príncipe encantado acabou por fazer dela uma pornqueen. Ele nunca falou muito do assunto. Ela nunca mais foi anónima.

Sónia quer ser famosa. Tem o desejo ambíguo de ser figura pública, sem ser público o que faz. Enfrenta o destino como uma realidade virtual. Encara as coisas como se não estivessem a acontecer, encarando-as depois como se não tivessem acontecido. Apaga do seu mundo o que não quer. É uma atriz do mundo real. Neste, alguém contou aos pais o género de estrela que ela era. “Afastaram-se. Sempre fui a menina do papá, mas até ele me virou as costas.” Esconjurou as lágrimas para outra face do mesmo tema: a indústria.

Expresso: Veja aqui o resto desta entrevista.

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